Memória: 120 anos do naufrágio do barco “VASCAINA”

Memória: 120 anos do naufrágio do barco “VASCAINA”

Por: Walmer Peres Santana, Historiador do Club de Regatas Vasco da Gama / Coordenador do CPAD-CRVG

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No dia 18 de maio de 1902, há 120 anos, ocorrida a maior tragédia da história do remo vascaíno: o naufrágio do barco “VASCAINA”. A prática do remo não exigia conhecimentos de natação. Assim, uma aventura em águas mais profundas e revoltas poderia vitimar aqueles que não sabiam nadar. O trágico acontecimento levou a vida de quatro sócios cruzmaltinos. Diante de tanta tristeza, o quadro vascaíno se uniu e por toda cidade se viu manifestações de condolências e apreço pelo Club de Regatas Vasco da Gama.

Hoje, sabemos que a partir de 1902, o Gigante entrava em um período de estabilidade política interna e crescimento econômico (1902-1903), fundamentais para o sucesso esportivo que viria obter nos anos seguintes. Entretanto, naquele tempo, o Vasco acabava de sair de duas grandes cisões sociais (1899/1901) que quase levaram ao fim da agremiação. No mês seguinte ao naufrágio, no dia 05 de março, a agremiação vascaína perderia o seu presidente-fundador Francisco Gonçalves do Couto Junior, vitimado por um rompimento de aneurisma. Couto Junior havia retornado ao Clube e estava no seu terceiro mandato à frente do Vasco.

No início do século XX, era mais comum a prática do remo se estender para além da sua vertente competitiva. O desejo pelo lazer e a aventura levavam várias pessoas a se associarem a algum clube náutico para poderem fazer uso dos barcos e aproveitarem as belezas existentes no recôncavo guanabarino e nas suas proximidades. Movidos por esse desejo, treze vascaínos partiram às 14h, do dia 18 de maio de 1902, do barracão do Clube. Saíram da Praia do Boqueirão para Niterói os sócios:  José da Silva Campos, Francisco Barcellos, Raul Rodrigues Martins, Eduardo Almeida Roque, Miguel Dias, Emilio de Souza Campos, Guilherme Fernandes de Azevedo, Antonio Gomes Junior, Alberto Pinto Cunha, Lourenço Seguro Serpa, José Pinto, Theodorico Lopes Machado e Luiz Jacintho Ferreira de Carvalho.

No retorno para o Rio de Janeiro, as águas da Baía de Guanabara estavam revoltas, mesmo assim, os tripulantes resolveram investir contra as ondas. Por volta das 17h, já no meio da baía, o barco dava sinais de que não iria suportar a força das águas. A embarcação fazia água, os ventos eram cada vez mais fortes e de nada adiantava as remadas, pois os remos mal atingiam o mar. Uma onda mais forte levou a tripulação ao desespero, muitos não sabiam nadar e poucos o sabiam com habilidade. Veio, então, uma onda enorme que fez o barco virar, derrubando os vascaínos nas águas guanabarinas. De imediato, quatro associados cruzmaltinos foram arrastados, perdendo as suas vidas: Lourenço Seguro Serpa, José Pinto, Theodorico Lopes Machado e Luiz Jacintho Ferreira de Carvalho.

Luiz Jacintho Ferreira de Carvalho, patrão/timoneiro da “VASCAINA”, era português, tinha 34 anos de idade. Trabalhava como empregado do comércio na casa comercial Sotto Maior & C. Luiz Jacintho foi membro do Conselho Fiscal (ainda Conselho) na primeira Diretoria do C. R. Vasco da Gama, sendo um dos fundadores da agremiação vascaína. Retornou a Portugal e veio novamente para o Brasil em 1900, deixando uma noiva na sua terra natal. Na época da tragédia, ocupava o cargo de 1.º Secretário e era um dos representantes do Clube na Federação Brasileira das Sociedades do Remo.

Theodorico Lopes Machado possuía 20 anos. De nacionalidade portuguesa, era empregado na casa comercial de “molhados”, Corrêa & Carvalho, à rua do Rosário. Lopes Machado era empregado do comércio, atuando como 2.º caixeiro. José Pinto também atuava no comércio, como empregado, desempregado à época. Lourenço Seguro Serpa era espanhol, tinha apenas 18 anos de idade.

Os nove vascaínos que conseguiram se salvar, agarraram-se ao barco. Por volta das 19h, um menino, filho de pescadores, enxergou os sobreviventes que clamavam por socorro. Graças ao pequeno José Martins de Barros, os pescadores lusitanos José Joaquim de Aguiar Moreno e Antonio Silveira foram avisados e partiram em direção aos náufragos cruzmaltinos para salvá-los, mesmo com o mar ainda bastante agitado.

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Os jornais do Rio de Janeiro e de Niterói retrataram a dor do Clube com a perda dos seus associados. A tristeza se abateu sobre a agremiação. Mas, também foi destacada a coragem dos humildes “pescadores-salvadores” que fez com que a tragédia não fosse ainda maior. O Vasco da Gama agraciou José Moreno, Antonio Silveira e o jovem José Martins com o título de Sócio Honorário na Assembleia Geral realizada em  1.º de junho.

Os três heróis receberam várias homenagens e foram agraciados com prêmios por diferentes entidades. No dia 22 de junho, realizou-se no salão nobre da Associação dos Empregados do Comércio, no Rio de Janeiro, uma sessão solene para a entrega de medalhas de honra aos pescadores. O governo brasileiro se fez representar com o mandatário da nação, o Presidente da República, Campos Sales. Estiveram presentes outras autoridades políticas do país e o Ministro de Portugal no Brasil, João de Oliveira de Sá Camelo Lampreia.

Os nobres pescadores foram agraciados com uma medalha de ouro, em nome do Rei de Portugal e Algarves, Dom Carlos I. Além disso, receberam medalhas de mérito do Club de Regatas Vasco da Gama, da Federação Brasileira das Sociedades do Remo e da Presidência da República. Campos Sales declarou Luto Nacional em memória dos vascaínos que tiveram suas vidas ceifadas pelas águas da Guanabara.

Relembramos esse acontecimento como forma de prestigiar a memória dos associados que perderam as suas vidas naquele trágico acidente, bem como destacar a bravura dos que sobreviveram e daqueles herois que os ajudaram naquela tragédia. Além disso, buscamos demonstrar a força dos vascaínos e vascaínas em momentos de dificuldade. Fosse o Vasco um clube comum, tais acontecimentos, que atingiam uma associação ainda com poucos anos de vida, iriam enfraquecê-lo.

Entretanto, o Clube se fortaleceu após cada revés que testava os brios dos adeptos da Cruz de Malta. Na contemporaneidade, incrivelmente, vemos pessoas surpresas com as manifestações da torcida vascaína, que comemora vitórias em partidas de futebol como se fossem títulos conquistados… Mal sabem que a construção desse colosso do esporte nacional tem como base o amor inexplicável e inesgotável e a coragem inabalável dos seguidores dessa agremiação campeã de terra e mar.

 

Fonte: vasco.com.br/memoria-120-anos-do-naufragio-do-barco-vascaina

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